sexta-feira, 28 de agosto de 2009

À Donatien Alphonse.

Choraminga versos como quem chora a vida. Bate no peito e orgulha-se da amostra de desamor.
Nas vicissitudes da existência, quer ser dama, quer ser rei. Não sabe ao certo do que morre. Diz que é da vida, amortecida. Diz que é do seu eu. E nem bem sonha que já pereceu.
Ao estilo Sade, abafa o gozo de outrem. É cópia da cópia... E este gosto, senhor, emprestou de quem?
Que tua mantilha não caia e desvende o riso acre. Palavras e retratos? Deixe-os. Deles, cuido bem.
Imagem: Lado A - José d'Almeida e Maria Flores

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Cadência (sim Cadência) sem remédio

A noite dolente como sempre, comum vibra perturbada mais alguma vez, com os aforismos de sempre e palavras de mais para pouco dizer.
Vibra entre alguns versos de loucura que consola, tudo tão adorável como antes. Perdeu a idade em meio aos versos que de Florbela inspirou.
Perdida como ela entre sonhos verdes sem nexo, sem parede ou fundo. Alguém a cegou por graça e ficou perdida de tanta pena da lua e de outras que pelos caminhos encontrou.
Cega de vazio nunca viveu, preferiu o escândalo que teve oportunidade de conhecer extraordinariamente, sem exagero. Grita para não cair no tédio, vive para ignorar a omissão por que todo mundo vive de quente ou de frio. Quem gosta de morno?
Segue e grita, sem cair no tédio do fracasso. Vontade doida sem remédio.
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Foto: João Leonardo Madalosso

sábado, 8 de agosto de 2009

Veludo azul

O vestido deslizava pelo corpo e revelava o ombro direito. Desnudava-se com suavidade, à meia-luz. Com o semblante cândido, sussurrava. "Me bate".
Faces rubras e insatisfação no peito. Implorava. "Mais forte".
Sagrava seus amores densos e sombrios, repletos de gestos teatrais e passagens literárias. Faltavam-lhes retratos.
Repetia a frase do Leminski: "ah, troço de louco, corações trocando rosas e socos". A leveza lhe parecia insustentável.
Com o corpo esgotado, abandonou antigos hábitos e hóspedes. Deixou o coração inóspito... Completava suas ausências com adeuses, retratos e boas-vindas.
Na noite de sono compartilhado, encontrou no pouco, tudo.
Um amor que nada pesa.

Imagem do filme Veludo Azul (1986), de David Lynch.

sábado, 25 de julho de 2009

À imagem

Das noites de tormenta e dos dias de cólera, apenas rasos vestígios. Os versos melancólicos tornam à mente, vez ou outra, como uma prece oculta.
Da moça que esperava na janela, meditativa, apenas o laço de fita guardado na gaveta. Desejava o céu mas queria a terra, como se pudesse tocar com os dedos curtos os dois de uma só vez.
Despia-se. Espreitava. E não era adorada.
Prometia ao reflexo do espelho que um dia seus olhos não teriam aquela cor.
Despia-se.
Com o peito pequeno para um coração graúdo, deitava-se na rede à espera da boca amargurada e envelhecida.
E hoje tem uma vaga lembrança de sua imagem. Que ainda sabia amar.

Foto: Autumn Sonnichsen

sábado, 18 de abril de 2009

Traduzida por Woody Allen

Em cada tragada de cigarro dos personagens, ela se encontra. Nos diálogos, seu DNA ali, exposto em palavras.
Como pode um homem que nem a conhece saber tanto sobre seus vícios e adeuses?
Igual a tudo na vida, se desfaz. Encontra na sequência de versos o sentido da busca amarga e doce. É nas contradições que ela se faz Cristina. Para poder provar outros gostos de existência. Em cada obra não terminada, a pureza da língua. A transparência de seu desejo.
Cristina pode estar em Barcelona ou Manhattan. Em uma noite de verão ou entre neblinas e sombras. Será para sempre, simplesmente Alice, ainda que seu sonho de Cassandra desapareça.
Na mistura de personagens, ainda diz “eu te amo” com os olhos, enquanto todos dizem eu te amo com palavras frígidas.
Entre crimes e pecados, Vicky morreu sem narrador. Mas Maria Elena ainda existe, mesmo que nas obras. E através de fotografias, pinta o sentido da vida, porque “têm muito a expressar, embora não tenha talento” para a pintura.
Entre comédias e tragédias, canta a mesma parte da música "Barcelona"...
- Porque tanto perderse, tanto buscarse, sin encontrarse?
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Tudo para nunca pôr um ponto final.



Fotografia: www.olhares.com
Personagens e filmes de Woody Allen

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Alma


Breve o sorriso dos satisfeitos. Largo. Vasto o dos descontentes. E da alma estática e sem rumo? Não há riso? Não há choro?
Nem o suspiro de virgens desmaiadas. Alma de luto, sem lamúrias. Nem palavras que anunciam solidão. E do leito de mágoas antes deitado, sem vestígios.
Alma acromática.
Alma indolor.
Outrora, quando tantas almas riam dentro da minha, e tantas outras choramingavam, o toque era sentido. Tudo doía. Tudo amava.
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Alma lacônica e apática,
Volte a padecer.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Capítulo I – Talhos


“Ela é a sua cara” – diz o tio desconhecido.
Anos se passaram. Aliás, muitos deles. Ao total, 23. Valentina sempre carregou no peito algo parecido com um coração. Meio incompleto, meio vazio. Um tanto com o tecido podre, que esperava um remédio ou um veneno, para regenerar ou ser fatal.
Os pulsos tinham cicatrizes imaginárias. Cortes feitos quando ainda era menina, mas já sabia das coisas. “Cortar os pulsos não é letal”, pensava. Por “já saber das coisas” desde pequena, Valentina nunca foi audaciosa o suficiente para cortar-se. Entretanto, sempre se sentiu retalhada.
“É mesmo” – diz o pai orgulhoso. “É bonita, inteligente e sarcástica. Teve a quem puxar”, sorri.
Quem escolheu o nome foi sua mãe, como homenagem a uma sobrinha falecida dois anos antes de Valentina nascer.
Não gosta muito de vinho, apesar de ser um costume de família. “Um cálice depois do almoço faz bem para o coração”, repetia diariamente seu avô. “Não dá vinho para criança”, gritava a mãe da cozinha, enquanto trazia açúcar e água para misturar na taça. O gosto era pior que suco de uva vendido no colégio. Aguado, quase lilás e extremamente doce.
Valentina sorri. Nota os olhos brilhantes do pai. Aquele olhar que muitas noites desejou sentir. Azuis, acolhedores e altivos. Sente a felicidade disfarçada.
Pensa que finalmente poderia cortar-se, porque estava inteira.